Dor nas costas (e como acabei dançando tango)
Sofro de um problema lombar que não tem cura: hérnia de disco. Para prevenir o pior (a crise, quando parece que tem um DJ promovendo uma rave nos meus discos), faço Pilates. Ou melhor, fazia; parei no oitavo mês de gravidez. Minha filha tem cinco meses, e eu ainda não voltei...
Mas o DJ voltou, implacável.
Lara está pesando 6,4kg de pura fofura e graça. Mamãe aqui, empolgadíssima, acabou exagerando no senta-levanta-senta-levanta com o bebê no colo, e deu no que deu. Dei uma travada histórica, fui parar na fisioterapeuta.
De roupinha de ginástica, em frente ao espelho.
- Fica reta.
Já ouvi essa conversa. Elas mandam a gente “ficar reta” e a gente até tenta, mas não é possível satisfazê-las jamais.
- Fica reta.
De novo?
- Fica reta.
Era a minha cabeça que repetia para mim mesma. “Fica reta”. Espelho, espelho meu. Estou calejada, conheço esses refrões fisioterapêuticos de longa data. Acabo sempre desafinando no final.
- É... (a fisioterapeuta me olha e bufa com discrição, como se isso fosse possível).
Primeiro ela diz que eu “fiz” uma torção, ou algo assim, nos ossos da bacia.
- Você está na posição do tangueiro.
- Tango?
Era isso mesmo. Parada em frente ao espelho, pareço um bailarino de tango “requebrando” os quadris. Sabe a foto de divulgação do espetáculo, quando o bailarino joga os quadris para um lado para fazer charme? Assim sou eu. Tirando o charme.
- Pelo menos não é lambada, né? (Rio amarelo, rá rá. Ela não acha graça. Bailei sozinha).
Seguimos consulta adentro como se nada tivesse acontecido, e tudo ia acontecendo cada vez mais. Minha hérnia. Minhas bacias e meus baldes. Minhas dores. Meu sacro. Minhas costelas. Meu bebê!
- Dói assim?
- Rá, nadinha. Quantos pontos valia essa?
Droga, soltei outra piadinha. Não me controlo nem depois do tango! Desculpe, mas é muito engraçado a pessoa cutucando e a gente dizendo se dói. Sempre quero me fazer de “macha”, e sempre desisto na segunda cutucada. Perde-se completamente os brios.
- Pronto. Agora vá para casa e pratique esse exercício 200 vezes por dia. Você vai ficar ótima.
Saí de lá aliviada da coluna, mas cheia de dor nas pernas. E com um dever de casa que combina perfeitamente com a maternidade: repetir uma coisa até a exaustão, e depois começar tudo de novo!
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PS: Já que estou a meio caminho andado, quem sabe agora até aprendo a dançar, né?
Trecho do filme “Perfume de Mulher” (1992). Al Pacino e Gabrielle Anwar dançam Por una Cabeza, de Carlos Gardel