segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Cesariana

- Mais 4 minutos e ela vai nascer.
- Jura?
- Três e meio...

Achei mesmo que o médico estivesse brincando. Tenho uma mania de achar que os outros estão brincando nos momentos mais sérios da minha vida – a verdade é que estou tão nervosa que não consigo encarar os fatos, então fico para mim mesma: “he he he”. Para descontrair, sabe como é.

E, sabe como é, não adianta nada.

- Três e meio...
- O senhor tá de sacanagem!

Durante a cesariana, fiquei tão tensa que desandei a falar como um narrador de futebol. Não sou de dar chilique, então as pessoas acham que sou muito calma. A verdade é que disfarço muito bem, mas Deus sabe como isso me custa. Se alguém me pedir para ser espontânea nas horas tensas, prefiro a morte. Extravasar não é comigo, faltei a essa aula e não aprendi como se faz, mas, se a coisa aperta mesmo, engato uma quinta e parece que engoli uma missa em latim.

- Estou com falta de ar. Falta de ar. (Para o meu marido:) Eu estou bem? (Para o anestesista:) Está tudo bem? Eu estou com falta de ar, não sei se já disse. Gozado, parece que tem alguém mexendo em mim. (Estavam abrindo a minha barriga e tirando uma criança de dentro dela.) Estou sentindo um tranco esquisito. Me deu uma tontura. É normal ter sono nessa hora? Já falei sobre a falta de ar? Me falta o ar.

De tanto eu repetir que me faltava o ar, puseram uma máscara de oxigênio. Adorei o barato que aquilo deu, mas até agora tenho dúvidas se não era placebo para eu calar a boca, o que seria bem feito.

Ela nasceu à 1:08 da tarde.

- Quer ver? – Perguntou o pediatra.

Dessa vez eu não fiz “he he”. Encostei pela primeira vez na minha filha e me faltou, além do ar, também o latim.

- Efdjweudhvgq gtdwb fewbqrpoue.

Urgente, uma língua para o indizível.

**

Apagando meia velinha


Hoje ela faz seis meses. Comeu banana amassada. Fez mil caretas, depois abriu o maior bocão como quem diz: é só essa porcaria mesmo que tem? Então me dá mais!

Puxou à mãe.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Melhores e piores - até 6 meses

Fiz uma listinha de “melhores e piores” para bebês até 6 meses de idade. Logicamente, tudo aqui é subjetivo – e o que vale para mim pode não valer para você. Mas também pode servir como um ponto de partida para quem não tem experiência nenhuma, e pode ser uma referência a mais para quem já tem. Adoraria que vocês também deixassem as suas dicas.
***

Fraldas descartáveis

Melhor: Pampers Total Confort (pacote verde).
A Turma da Mônica também é muito boa, mas deu alergia e tive de trocar.

Pior: Johnsons. É muito ruim mesmo. Até a “noturna”, que é menos pior, deixa a desejar.

Algodão

Melhor: Disparado o Johnsons, em bolinhas. Aqui no Rio está sumido do mercado.

Pior: Apolo. É um tijolinho.

Roupinhas

Melhor: os bodys e os macacões são muito mais práticos.

Pior: camisetinhas com gola pequena (dá aflição passar a cabecinha do bebê por elas) e mangas justas. Camisetas, em geral, são um pouco chatas porque vivem subindo e a barriga acaba ficando de fora.

Para fazer dormir

Melhor: preparar o ambiente, reduzir a luz, enrolar o bebê numa manta (pode ser uma toalha de fralda se estiver calor), segurar um pouquinho na posição vertical e depois colocá-lo no berço, ainda acordado. É muito importante que ele aprenda a dormir já no berço.

Pior: ninar o bebê, balançá-lo e ficar andando com ele de um lado para outro. É péssimo acostumá-lo a só dormir com um balancinho, porque ele vai ficar cada vez mais pesado! Além disso, se acordar no meio da noite, não vai saber se acalmar sozinho e adormecer outra vez. Vai sempre precisar de alguém disponível para niná-lo.

Amamentação

Melhor: para as primeira semanas, pomada Lansinoh – recomendada pelos médicos, evita rachaduras nos mamilos e não precisa ser retirada quando o bebê for mamar.Tiro e queda.

Pior: não obter ajuda. O bebê precisa pegar o seio corretamente, e isso pode não ser fácil se você não tem alguém experiente ajudando. Particularmente, acho muito difícil entender o processo a partir da descrição encontrada em livros e revistas. Tem que ser na hora, vendo, corrigindo e tendo muita paciência até obter uma mamada confortável para ambos.

Brinquedos

Melhor: os coloridos que fazem algum barulho quando manipulados.

Pior: toalhas de mesa. Você se distrai e eles puxam mesmo!

Troca de fraldas

Melhor: nunca tinha ouvido falar nisso, mas começamos a fazer e deu certo (aprovado pelo pediatra): logo que tiro a fralda, encosto levemente uma folha de papel-toalha no bumbum dela para absorver o “excesso”. Depois, fica mais fácil limpar com algodão e água morna. A melhor marca é Snob – mais grossa e resistente.

Pior: geralmente a criança é trocada em seguida depois de mamar. Quando levantamos as perninhas dela para limpar o bumbum, a pressão no estômago pode causar vômito. É legal fazê-la arrotar após a mamada, e dar um tempo entre uma atividade e outra.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Curso de bebê

* Flashback - texto de quando eu estava grávida.


Fomos ao tal curso para casais grávidos (é assim mesmo que chamam). Fiquem calmos, ainda não afoguei a boneca na banheira porque o capítulo do banho é só no próximo sábado. Ando ansiosa.

No geral, foi ótimo. Aprendi coisas fantásticas sobre parto, amamentação e cuidados com o bebê. Mil exemplos, mas aqui vai um ponto alto: se o bebê chorar – e vai chorar -, não se deve começar oferecendo o peito (que se chama “mama” nos ambientes respeitáveis, fui aprender agora, antes tarde do que nunca).

Se o pequeno chorão der com a mama diante da sua boca, irá sugá-la por puro instinto. Mesmo sem estar com fome. A confusão estará instalada: desregula-se o ritmo da mamada e, depois, para arrumar tudo de novo, vai ser um parto (ops!).

Então eles sugerem uma seqüência de checagem do choro. Cocô? Xixi? Calor? Frio? Cólica? Dor de ouvido? Etc. Já me esqueci da ordem correta, mas trouxe a apostila em CD ROM e vou estudar direitinho em casa. Assim, na hora do nervosismo-pega-pra-capar, estarei totalmente apta a esquecer tudo de novo e gritar bem alto, chamando pelo pai dela – que virá correndo me atender e começará a checar, agora em mim: cocô, xixi, calor, frio... E é capaz de encontrar tudo isso, no desespero a gente nunca sabe.

Se nenhuma das alternativas anteriores e malcheirosas for a correta, o pimpolho faz cara feia é de fome mesmo. Aí, segundo consta, é só com a mãe e sua mama (não me refiro a avó, mas ao peito, com todo o respeito). Parece simples.

Além disso, para verificar incômodos como dor de ouvido ou cólica, a medida não poderia ser mais elementar: aperte o ouvido. Se piorar, era dor de ouvido. Ora, isso eu sei fazer!

Na hora da cólica, o médico/professor veio desafiando os alunos: alguém sabe como se faz para ver se é cólica?

Bom, eu não quis dizer a verdade. Que minha filha e eu já desenvolvemos um fino sistema de placas, cada qual com letras coloridas e desenhos da Minnie, em que ela levantará o cartaz “CÓLICA” se estiver com cólica, assim por diante. Não tive coragem de confessar. E, como o método usado pelo médico - lançar perguntas desafiadoras e ficar esperando hooooras até que um tímido se manifestasse – já estava cansando a nossa beleza, resolvi fazer uma graça.

- Aperta o bebê!... Estica! (E sorri amarelo, estimulando outras risadinhas tímidas dos colegas).

Me dei mal: quis fazer piada, mas acertei sem saber. Era isso mesmo. Pressionando um pouco a barriguinha – se o choro piorar, é cólica – ou espichando as duas perninhas do baby, resolve-se a parada. Isso porque tendência dele é ficar encolhidinho quando sente esse tipo de dor.

Resumindo: se o bebê chorar, é melhor – para ele - que esteja bem sujo de cocô ou urina. Caso contrário, é tarefa da mãe sair judiando da criança (beliscando, apertando, puxando, esticando) até que alguma dessas ações produza o efeito esperado: piorar o choro. Aí, conclui-se o motivo e liga-se para o pediatra:

- Doutor, socorro! Não sei o que deu nessa criança! Está chorando e agora berra cada vez mais alto, parece até que alguém apertou o bichinho...

Hoho.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Tempo, vida, estréia

Quando eu estava grávida, gostava de brincar que ela já existia do lado de fora da minha barriga. Ficava imaginando como seria. Entrava pela sala e olhava para o sofá, por exemplo.

- Filhota! Diz oi para a mamãe.

Mas ela estava distraída com um chocalho colorido e não dizia.

- Filha, olha quem chegou: a mamãe! Diz oi, diz.

Nada.

- Só um oizinho...

Eu conseguia ouvir o chocalho, a buzina do caminhãozinho, a música do móbile; só não conseguia ouvir a voz dela. Tem coisa que a vida guarda para o momento da estréia. Sabiamente.

***

Agora que ela tem cinco meses, gosto de brincar que ela não existe. Entro pelo quarto, disfarçadamente, assobiando. Olho aquelas cores e digo para mim mesma “isso ficaria muito bem num quartinho de bebê”.

De repente, flagro aquela menininha risonha no berço. Caramba! Quem botou essa criança linda aqui? Danou-se. Será que eu vou saber cuidar?

Será, será, vou dizendo e pegando minha filha nos braços. Agora ela tem cinco meses. Agora ela tem quinze meses. Será, será. Agora ela tem dois anos, três, dezoito, quarenta. No meu colo, risonha, com cinqüenta e sete anos. É mais velha do que eu.

Meu Deus, será que eu soube cuidar direito dessa senhora?

***

Eu, grávida de seis meses, fazendo análise.

- Não vou saber o que dizer para uma adolescente. Sou incapaz. Tenho absoluta certeza, vou ser um fracasso como mãe de adolescente.

E a minha analista, paciente com sua paciente:

- Calma. A primeira coisa é deixar que ela nasça.

***

Com 12 anos, escrevi num diário um “recado para mim mesma”. Tinha toda uma teoria: a máquina do tempo existia, sim, e ali eu pretendia conversar com a “mim mesma” do futuro. Fiz lá umas previsões do tipo pretendo estar assim aos 20, assim aos 30 e assim por diante.

Alguém nunca fez isso?

Estapafúrdias as minhas previsões. Queria ser psicóloga, não fui. Errei alguns quilos para cá, centímetros para lá. Mas acertei a cidade, queria muito morar no Rio.

Listei uns trinta nomes de possíveis maridos para mim mesma me casar com “pelo menos um deles” (pelo menos um?) aos vinte e poucos. Assim, se eu encalhasse, não seria por falta de sugestões. Seria encalhamento mesmo. Marcelo, Maurício, Eduardo, João, Guilherme. Quis fazer uma lista bem imparcial, procurei nomes que não correspondessem aos dos meus coleguinhas de turma. Mas roubei de mim mesma e enfiei no meio um colega do caratê. “Caratê pode”.

Golpe do destino: casei só aos vinte e muitos, com um homem de nome lindo e até bastante comum, mas que eu nunca tinha namorado ou paquerado antes. E não tinha no caratê.

Tem coisa que a vida guarda para o momento da estréia. Sabiamente.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Menininha cantora

Acho que todos já devem ter assistido a esse vídeo, mas nunca é demais rever a menininha inventando suas melodias. Linda!

terça-feira, 24 de julho de 2007

Resfriado de bebê

Ai, que dó. Primeiro resfriado dela. Nada preocupante, só uma sucessão de espirros - que parecem nem caber direito naquela boquinha -, tosses seguidas de susto e um narizinho escorrendo. Ela esfrega, irritada.

Ai, quanta dó.

Claro que me bateu paranóia. Meu Deus, e quando for alguma coisa séria? Se eu já fico nessa pena imensa só de observar a chateação mínima de um resfriado vagabundo, que espécie de surto vai me dar quando ela realmente adoecer? Machucar? Magoar?

Eu mato o desgraçado.

Se ela usar óculos, e alguém a chamar de quatro-olhos (como aconteceu comigo)? Pior: se ela chegar de óculos, pela primeira vez, e ninguém nem perceber? Se o marido – ai, o marido! – não notar?

Eu mato o energúmeno.

E quando ela experimentar uma calça jeans e não ficar legal, e ela culpar seus próprios quadris, e não aceitar meu consolo? E se um menino olhar torto na direção dos seus quadris? E se olhar reto?

Eu mato o *(#$@%¨#@#!!!

Ser mãe é querer esfolar o vento sem caráter que achou de soprar justo no rostinho que você nunca queria ver fazendo atchim.

domingo, 22 de julho de 2007

De cabeça para baixo

Todo dia uma novidade. Agora ela está no colo da gente, sentadinha, e começa a se inclinar para trás até fazer um “U” invertido com as costas. O topo da cabeça encosta no sofá e ela aprecia o mundo invertido. Risonha.

Filha! Mal conhece o mundo de cabeça para cima e já quer torcê-lo de ponta-cabeça?

Para ela, vai ver que faz sentido.

- Dá licença de eu começar pela ponta que julgar mais adequada?

Vai ver que me diria. Ou nem. Diria:

- Adequada mais julgar que ponta pela começar eu de licença dá?

- Hein?

- Pô, mãe.

Dá uma certa angústia, mas vê-la tão confortável na posição me provoca também umas alegrias estranhas – alegrias de mãe de primeira viagem. Ela está curtindo. Eu estou segurando o que posso segurar (para ela não cair) e deixando solto o que é preciso para que curta a brincadeira do seu jeito.

Acho que vai ser mais ou menos assim.

**

- Mãe, um dia a gente vai no Japão?

- Ao Japão, filha.

- Então você me leva?

- Calma. Eu disse ao Japão porque é assim que se fala. E não “no Japão”.

- Oba! A gente vai?

- Aonde?

- No Japão!

- Ao! Ao!

- Au! Au! (Imitando um poodle). Oba! Você me leva no Japão e ainda me dá um cachorrinho?

- Você está torcendo tudo, filha.

- Por isso mesmo que eu quero ir no Japão.

- Ao Japão!

- Isso! Para inverter tudo. Ao Japão dizem que é tudo de cabeça para baixo.

- Agora seria “no Japão”...

- Agora? Mas eu nem arrumei a mala!

- Peraí. Vamos começar tudo de novo?

- Pode ser de ponta-cabeça, como ao Japão? Mãe, só tem um problema.

- Qual?

- O cocozinho.

- Você fez cocô de novo?

- Eu não, o nosso cachorrinho. Ele vai fazer cocô de cabeça para baixo e vai cair tudo na nossa cabeça.

- Quando a gente perceber que ele está fazendo cocô, a gente desvia.

- Aí vai cair no céu, né? Vai sujar o céu do Japão e o rei vai expulsar a gente. Eu não quero ser expulsa do Japão por causa de cocô de cachorro!

Respiro fundo. Japão. Cachorro. Rei. Céu. Cocozinho.

- É o seguinte. Sabe aquele perfume vermelho da mamãe? A gente leva para o Japão. E, quando o cachorrinho fizer cocô no céu, a gente abre o vidro de perfume e deixa cair todinho.

- Porque no Japão as coisas caem para cima!

- Isso. Assim, o céu vai ficar todo perfumado. E vai chover cheiroso. O rei vai ficar feliz e agradecido porque o Japão vai ser o único país do mundo onde a chuva virá como água de colônia. E vai nos dar cinco cachorrinhos japoneses de presente. Não é legal?

- Muito. Mas tem um probleminha.

- O que é agora?

- Os cachorrinhos vão fazer mais cocô no céu, e a gente vai precisar de mais perfume. Vai sair muito caro! É melhor a gente dar um remedinho para o nosso cachorro não fazer cocô no Japão.

- Coitadinho!

- Não faz mal, mãe. Ele faz cocô quando a gente voltar. Eu queria mesmo voltar antes de ficar noite.

- Então a gente só vai ao Japão dar uma voltinha? Nem vamos dormir lá?

- Claro que não, mãe! Você tá maluca, dormir de cabeça para baixo??