Cesariana
- Mais 4 minutos e ela vai nascer.
- Jura?
- Três e meio...
Achei mesmo que o médico estivesse brincando. Tenho uma mania de achar que os outros estão brincando nos momentos mais sérios da minha vida – a verdade é que estou tão nervosa que não consigo encarar os fatos, então fico para mim mesma: “he he he”. Para descontrair, sabe como é.
E, sabe como é, não adianta nada.
- Três e meio...
- O senhor tá de sacanagem!
Durante a cesariana, fiquei tão tensa que desandei a falar como um narrador de futebol. Não sou de dar chilique, então as pessoas acham que sou muito calma. A verdade é que disfarço muito bem, mas Deus sabe como isso me custa. Se alguém me pedir para ser espontânea nas horas tensas, prefiro a morte. Extravasar não é comigo, faltei a essa aula e não aprendi como se faz, mas, se a coisa aperta mesmo, engato uma quinta e parece que engoli uma missa em latim.
- Estou com falta de ar. Falta de ar. (Para o meu marido:) Eu estou bem? (Para o anestesista:) Está tudo bem? Eu estou com falta de ar, não sei se já disse. Gozado, parece que tem alguém mexendo em mim. (Estavam abrindo a minha barriga e tirando uma criança de dentro dela.) Estou sentindo um tranco esquisito. Me deu uma tontura. É normal ter sono nessa hora? Já falei sobre a falta de ar? Me falta o ar.
De tanto eu repetir que me faltava o ar, puseram uma máscara de oxigênio. Adorei o barato que aquilo deu, mas até agora tenho dúvidas se não era placebo para eu calar a boca, o que seria bem feito.
Ela nasceu à 1:08 da tarde.
- Quer ver? – Perguntou o pediatra.
Dessa vez eu não fiz “he he”. Encostei pela primeira vez na minha filha e me faltou, além do ar, também o latim.
- Efdjweudhvgq gtdwb fewbqrpoue.
Urgente, uma língua para o indizível.
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Apagando meia velinha
Hoje ela faz seis meses. Comeu banana amassada. Fez mil caretas, depois abriu o maior bocão como quem diz: é só essa porcaria mesmo que tem? Então me dá mais!
Puxou à mãe.