segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Aprendendo a falar

Filhota, cante com a mamãe. “A-tirei o pau no ga-to-to”... E fico esperando que ela repita o som do meu “to-to”, mas ela só tem uma idéia fixa na cabeça:

- Pa-pai.

Sim, filha, muito bonitinho, você já sabe falar papai. Agora vamos aprender essa musiquinha, tá bem? Aaaaaa-tirei o pau no ga-to-to!

- Pa-pai.

Mas o ga-to-to...

- Pa-pai.

Não morreu-reu-reu...

- Pa-pai.

Querida, preste atenção. Vamos entrar numa parte muito importante da canção, a Dona Chica. Se você repetir “papai”, não vai ficar nem bem. Imagina, Dona-Chica-papai, não combina. Então a mamãe vai puxar a Dona Chica-ca-ca bem devagarinho, e você olha fixo para a boca da mamãe. É só fazer igual. Vai firme que eu garanto.

Enchi os pulmões e caprichei no Dona Chica, mas ela ouviu “ca-ca” e repetiu, feliz da vida:

- Pa-pai!

Que seja, fui adiante. Admirou-se-se...

- Xxxsssszzzz... Ssszzxx...

Benzadeus! Uma consoante desafiadora quebrou a rotina. Esforçou-se para fazer o som do “s”, caprichou, babou, sibilou, soprou, é isso aí, essa é a minha menina!

- Szzzzrrrrxxxx! Sssxxxsshhh!

Nada como uma consoante cheia de curvas para desestabilizar o conhecimento. Agora ela tem um chiado a mais no vocabulário, uma função inovadora para a língua, um exercício inédito para o ouvido. Arregalou bem os olhos.

- Xxxsssszzzz... Ssszzxx!!!

Cristo, e não parava mais. Parecia que me dizia:

- Ótimo, agora que eu aprendi esse chiado esquisito, onde é que eu ponho? Para que serve isso? E principalmente: onde é que eu desligo? Ssssxxxxzz! Ssssszzz!

Calma, filha, mamãe vai arrumar umas vogais bem bacanas para você escorregar com essa nova consoante. O sapo sapeca suava o sapato saía sorrindo sumia no sítio... Viu só?

- Papai. Sssszzz! Ssssshhh! Papai.

Certo, entendi.

- Queridooooo, corre aqui que essa menina engoliu um esse!!!

Tudo culpa da Dona Chica, aquela cretina.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Querido Deus



Querido Deus,

ela já vai fazer um ano. O senhor está me ouvindo? Ela já vai fazer um ano!

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Ontem mesmo estava na minha barriga. Eu disse ontem mesmo, mesmo. O senhor deve ter ouvido falar muito em gravidez, mas, na prática, estou certa de que não sabe o que é.

Quer um resuminho básico da tarefa? Lá vai:
A GENTE NÃO DESCANSA NO SÉTIMO DIA. NEM NO OITAVO, NEM NO NONO.

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Querido Deus,

muito obrigada. Esta menina está engatinhando pelo chão da minha casa inteira, a bufar coisas encantadoramente ininteligíveis. E a gente achando lindo, imagine o senhor. Imagine o senhor!

(O senhor imagina muito aí em cima? Eu, se fosse o senhor, ficaria imaginando direto).

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Querido Deus,

quando diziam que ter filho é a melhor coisa do mundo, não era mentira. O senhor, que não é bobo nem nada, pariu logo uma humanidade inteira.

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Mas o senhor, que não é bobo nem nada, descansou no sétimo dia.

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Querido Deus,

dá um trabalho danado. Agora ela quer inventar de subir em tudo – armários, estantes, sandálias, joelhos alheios, cortinas, mesas, cadeiras etc.

Mas o senhor sabe do que estou falando – afinal, o seu filho mal tinha aprendido a andar sobre as águas e já inventou de subir aos céus. Essas crianças são fogo.

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Querido Deus,

como eu já disse, ela vai fazer um ano. Estou um pouco preocupada porque ela ainda não sabe soprar. O senhor se incomodaria se eu fizesse o pedido e soprasse a velinha no lugar dela?

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O pedido: que o senhor cuide muito bem da minha pequena. Se não der pessoalmente, mande alguém no lugar. A gente aqui reconhece e agradece (quando chegar a hora, prometo que pessoalmente).

Por enquanto vai por e-mail mesmo. O senhor compreende, muito o que fazer por aqui ainda.

Ass: Mãe (tudo igual, só muda o e-mail).

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Pérolas

Duas pérolas da Adriana Falcão, em seu adorável Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento (Ed. Planeta):

UMBIGO
Por onde mãe começa a fazer
tudo pelo filho aproveitando
a oportunidade dele ainda
estar dentro dela.

FILHO
Serzinho adorável e todo seu que um
dia cresce e passa a ser dele próprio.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Lara Já

Lara já tem quase 10 meses, e vamos construindo avanços na comunicação que ultrapassam todas as minhas expectativas de mãe coruja. Não que eu seja exagerada ou exibida, imagina. Acontece que é tudo muito rápido, e a palavrinha “já” acaba escapando da minha boca colada ao nome dela. Sempre. Toda frase começa com Lara e continua com já. Podia ser seu nome do meio: Lara Já.

Lara Já diz “mã mã” (embora ainda não ligue o nome à pessoa). Há quem ache que isso é modéstia minha, mas eu desconfio que o restinho da minha modéstia foi embora junto com o líquido amniótico e, mesmo assim, sigo convicta do caráter genérico desse “mã mã”.

Lara Já chama atenção dos passantes na rua, por sua própria iniciativa. Não pode ver ninguém de costas. Trata logo de puxar conversa com a nuca alheia, geralmente duas oitavas acima do tom habitual dos seres humanos, de modo que acaba confiscando olhares e risinhos simpáticos em frações de segundo. (Eu finjo que estou amarrando os calçados, já que não consigo fazer aquela cara orgulhosa de “fui eu que fiz”).

Lara Já bate palminhas. Juro! Só tem um pequeno detalhe: ela bate com uma mão fechada e a outra aberta. O resultado final do gesto pode ser interpretado de forma ofensiva pela oposição. (Nada contra, sou uma mãe democrática).

Lara Já rasteja pela casa dando gritinhos entusiasmados, enfia o dedinho em qualquer buraco ou ranhura que encontrar, puxa para si um pedaço do mosquiteiro quando está entediada no berço (e come), rasga revistas de moda (indignada com a esqualidez das manequins – “essa gente não tem mamadeira?”), faz a maior festa quando alguém chega em casa, devora um pratão de sopa em alguns minutos...

Por fim: Lara Já dá tchauzinho em cinco línguas. Fluentemente!

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Adeus, cabelão

Cortei os cabelos para ficar com cara de mãe moderna, elegante, descolada (ainda se usa esse termo, ou já descolou de vez?). Muita gente elogiou. Menos alguns.

- Mas o que houve com aquele seu cabelão, Jesus Cristo???

Minha manicure religiosa estranhou. Não sou boa em pedir elogio, mas me esforcei, antes que a carinha dela me desse medo de arder no inferno das mulheres arrependidas.

- E aí? Não ficou legal? – Arrisquei.

- Sem dúvida é muuuito mais prático!

E moeu minha cutícula com aquele alicate assassino.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Mamãe puxando ferro

- Há quanto tempo você não freqüenta academia?
- Com regularidade eu nunca freqüentei.

Parecia que eu tinha dito:

- Por baixo dessa pele branquela eu sou verde. À noite, pisco-pisco com motivos natalinos. Vai encarar, fortão?

O professor foi me ajudar na primeira série de musculação. Tudo que ele falava, emendava: “tendeu, amiga?”.

Tendeu, amiga? Aqui são 15kg, pino 7, botão 13 do encosto, regulagem M. Tendeu, miga? Tendeu? Duas repetições de 15. Tendeu, miga?

Tendi foi nada!

Fiquei tonta e saí de lá azul.

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A orelha do amigo fortão é um capítulo à parte. Fiquei procurando o buraquinho por onde deveria passar o som, e olha, foi difícil achar. Nunca tinha visto orelha de lutador tão de perto. Quando dizem couve-flor não é exagero.

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Na esteira, uma senhora de uns 60 anos ajudava a mãe.

- Aqui, mãe. Pode deixar que eu ligo para a senhora. Aperta em “manual”, mãe. Isso. Agora digita o seu peso e dá enter. Aliás, pode deixar que eu digito para a senhora.

Caramba! A velhinha tinha uns 80 anos ou mais. Subiu na esteira equilibrando as perninhas fracas, tinha que ver. Todo mundo olhando, mas disfarçando. Bacanérrimo.

Quando saí da sala, vi a bengala encostada num banco. (!!)

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Quando eu tiver 80 anos, a Lara terá 51.

- Por aqui, mãe. Aperta em “manual”.

- Você viu a orelha daquele professor?

- Fala baixo. Tem que reparar em tudo?

- MAS PARECE UMA COUVE-FLOR!

-Psssst! Menos, mãe. Desculpe, gente. Ela está um pouco impressionada e...

- Falar em couve-flor, minha filha, hoje é dia de feira?

- Mamãe!

- Esse menino ia ganhar um bom dinheiro na feira. Rá rá rá! Filha! Não vai embora, não! Devolve a minha bengala! Como é que eu paro essa geringonça?

Nisso ela já estará pulando a catraca e jurando que nunca mais me leva à academia. (Enfim, livre!)

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Aos 30

Vou fazer 30 anos, então decidi entrar para uma academia dessas com catraca eletrônica e tudo, como manda o figurino. Meu ritual de correr no Aterro do Flamengo é muito bonito, a vista é linda e blá blá blá, acontece que o calor do Rio de Janeiro é simplesmente impraticável a partir de novembro. Correr na rua após as 7h da manhã torna-se um hábito insuportável. E quem dera tivéssemos segurança na cidade para sair à noite.

Assim, me rendi à catraca e ao ar condicionado. Seja o que Deus quiser.

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Exame médico

Na fichinha estava escrito: “tolerância de atraso - 10 minutos”. Pois a médica atrasou meia hora e me atendeu com cara de besouro e poucas palavras. Mandou bufar três vezes (nisso sou boa!), mediu pressão, perguntou sobre as desgraças da família e anunciou, com jeito de quartel:

- Vou te liberar.

Paf! Deu uma carimbada na ficha e esticou a folha na minha barriga. Fui saindo de ré para não tomar mais o tempo dela (que, aliás, foi ela quem tomou de mim).

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Avaliação funcional

Essa avaliação funcional é uma coisa que não recomendo nem ao pior inimigo. O sujeito – com o qual não se tem nenhuma intimidade – fica beliscando os pneus da gente com aquele aparelho ordinário que mede o quanto extrapolamos nos bolos de laranja. Não diz palavra, apenas anota no computador. Tec, tec, tec. Parece que está fazendo orçamento de carpete: medida para cá, medida para lá, tudo muito abstrato e ininteligível... Ora, no final é assoalho!

E eu me sinto meio presunto nessas horas.

- Me vê 200gr daquele sem capa de gordura, por favor. Como assim tá em falta?

Depois, começa a registrar os problemas posturais da pessoa. Ombro esquerdo mais alto que o direito, quadris desalinhados, escoliose, lordose, é dose.

Por último, subo numa bicicleta ergométrica e fico lá aumentando os batimentos cardíacos à medida que ele aumenta a bendita carga. Quando estou francamente ofegante, e já de saco cheio, ele vem com a novidade:

- Tá vendo? Assim vai ser o seu treino. Para começar.

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Mas eu vou fazer 30 anos, de modo que decidi entrar para uma academia dessas com catraca eletrônica e tudo, como manda o figurino.

Vou confessar que, até agora, eu simpatizei mesmo foi com a catraca. Mas a esperança é a última que morre.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Querido diário

Quero deixar bem claro que minha filha é a coisa mais gostosa desse mundo: um bebê tranqüilo, alegre, saudável, etc etc, que me faz muito feliz desde o dia em que deixou meu ventre e veio adoçar nossas vidas com sua incomparável graça.

Isto posto, querido diário, vamos aos fatos. Acordou-me hoje às 6:10 da manhã. Resmungava. Não era exatamente um choro, talvez um chororô, coisinha insistente que não ia nem vinha, barulho que não configurava protesto, mas satisfeita também não estava. Levantei, fui até lá.

Abriu a boca num bocejo que emendou num sorriso. Olhos fixos em mim. Queria conversa.

Filhinha, isso não é hora, a mamãe está com sono, vamos acalmar os ânimos? Jogava as duas pernas para cima e puxava os pés para a boca. Arrancou fora uma das meias, que também levou à boca. Quando eu achei de interferir, meu dedo foi aonde? Boca.

6:20 Dei chupeta, não quis. Queria chupar tudo, menos o que é feito para isso. Insisti, ela tomou das minhas mãos e levou à boca – só que invertida, mordia o arco de plástico e fazia cara de reclamação. Eu, ainda de pés descalços, na esperança abobalhada de conseguir acalmá-la e voltar a dormir, qualquer minutinho já era negócio para mim numa hora dessas...


6:30
Fui ao meu quarto e calcei um pé do chinelo. Voltei mancando, que o chinelo é meio alto, mas decidida: só fico aqui mais cin-co-mi-nu-tos. Estou só metade calçada, portanto, metade acordada. Vou abrir o mosquiteiro e ela estará dormindo profundamente, tenho certeza. Volto para cama e descanso até as 7h. Só que antes de abrir o mosquiteiro ela voltou a resmungar, dessa vez um pouco mais alto.

6:40 Fechei as portas dos quartos para não acordar o pai dela. Melhor assim, agora estamos só nós duas aqui, papo de mulher. Por falar em mulher, lembrei-me da academia, que me lembrou yoga. No desespero, puxei “ooooommmmmmmmm” para ver se ela relaxava, hipnotizava, sei lá. Ooommm, ooommmmm, oooommmmm, repeti dezenas de vezes. Ela mordia o travesseiro e o lençol ao mesmo tempo, animadíssima (acho que entrou para a aula de aeróbica e me deixou meditando sozinha).

6:50 Voltei outra vez ao meu quarto e calcei o outro chinelo, mas não vesti nem o roupão. Dessa vez ela dormiu, aposto todas as minhas camisolas como dormiu, é só dar meia volta e vou tirar meu soninho da beleza, tenho ainda 10 minutinhos, melhor que nada. Que nada! Ela dava gritinhos e batia os pés no colchão em ritmo de afro-olodum-reggae-hip-hop. Quem foi que teve essa ridícula idéia de academia?


7:00
Nós duas no sofá da sala, depois de 50 min de batalha em vão. Ela, deitada no meu colo, abocanhava meu peito e tirava o soninho da beleza. Dela, claro.