quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Clarice Lispector, mãe

"Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...]."

Clarice Lispector

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Minha mãe dava um livro

Chegou toda empolgada, tinha visto uma blusa lin-da na vitrine. Descreveu em detalhes.

- E aí? Comprou.

- Calma, estou contando.

- Hum.

- Entrei na loja. Pedi para ver o preço, já nervosa.

- Comprou?

- Calma! Pensei assim: se custar até xis reais eu compro, não quero nem saber. Fico toda endividada, mas compro.

- E custava xis?

- Doce ilusão. Custava dez vezes xis!

- Que peninha.

- Pena? Graças a Deus, isso sim. Já pensou se eu compro aquela blusa?

- Ia ficar cheia de dívida, né?

- Isso é o de menos. O pior é que eu não ia usar nunca. Ia ficar guardada no armário, eu me conheço. Onde eu iria com uma blusa daquelas? Você parece que não regula!

Hoho.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

O que dizem as moças

Gosto de ler o que dizem as moças por aí. Outro dia, li a entrevista de uma atriz famosa, 26 anos. Tem uma cara ótima, corpo ótimo, etc, fala-se até que é boa atriz.

Pois dizia, entre outras coisas, que gosta de ficar em casa e fazer comida para o marido (ótimo), e que considera esse negócio de igualdade entre os sexos uma chatice (!!!), que nós, mulheres, só ficamos com o lado ruim (!!!???), o barato dela é ser cuidada e ganhar colo...

Me dá um frio na barriga, por Deus.

Agora, por outro lado, leia um pedacinho só da entrevista com a Patrícia Poeta – lindíssima, 31 anos - na capa da revista Uma:

Uma: Para você, o que torna uma mulher elegante?

PATRÍCIA: Acho que hoje a elegância está muito ligada à capacidade de cumprir múltiplos papéis sem abrir mão de ser feminina. Nós trabalhamos, temos carreiras de sucesso, estamos na política, cuidamos de casa, criamos nossos filhos e amamos nossos maridos – tudo ao mesmo tempo. Nossa geração está aí para mostrar que é possível. E como somos mulheres do século 21 e pudemos partir daquilo que nossas mães já tinham conquistado, fazemos tudo isso com jeito e alma de mulher. Dá um trabalho danado, mas é extremamente compensador.

Não custa tanto assim dizer uma coisa bacaninha, né?

terça-feira, 29 de julho de 2008

Diário de balzaquiana

"Alguma coisa aconteceu com o meu metabolismo depois que dobrei a esquina dos 29 e entrei, cantando pneu, nos 30."

Leia a crônica inteira no meu outro blog.

domingo, 27 de julho de 2008

Domingo com Teatro de Bonecos

Domingo ficamos sem a babá, então haja energia para passar o dia todo acompanhando o pleno desenvolvimento de uma “moça” de um ano e meio! Tenho cá meus truques, claro. Para aqueles momentos (raríssimos!) em que é possível tê-la sentadinha no meu colo, nada melhor do que “ler” um livro com ela, brincar de ampliar o vocabulário identificando as figuras e contando historinhas...

Ou cantar uma música, ou duas, ou três. Outro dia o pai dela abriu o piano e ensaiou meia dúzia de coisas que precisava lembrar para um trabalho, depois saiu e eu fiquei com ela. E ela, apontando o piano: “Cocá! Cocá!”.

Tradução: “Vamos tocar, mamãe! Está um saco aqui, o papai saiu, não temos nada para fazer e eu gostaria de ouvir aqueles sons maravilhosos que ele tão brevemente fez surgir desse instrumento que eu sempre desconfiei que não servisse para guardar vinho... Será que você poderia levantar a bunda aí do sofá e tocar para mim, fazendo o favor?”.

Eta. Argumentei que mamãe não sabe, que tal esperamos o papai, ele não demora, e se não der hoje, amanhã bem cedo ele...

“Cocá! Cocá!”

Respirei bem fundo, abri o piano e mandei ver o meu esboço (ridículo, diga-se) de uma harmonia em dó maior, até porque nem sei para que servem aquelas teclas pretas, e com as brancas também não me meto a besta. Com esforço comovente e três dedos da mão esquerda praticamente engessados, grudo aquela seqüência elementar - dó, sol, dó, fá, dó, sol, dó. E canto: fuuuui morar numa casinha-nha infestada-da de cupim-pim-pim... Etc.

Pois não é que me olhou com uma cara sinceramente emocionada, tanto que me empolguei e já ia puxando uma oitava acima para repetir tudo, agora animadíssima – foi quando ela segurou minha mão com sua mãozinha e disse, agora entre temerosa e piedosa:

“Papai...”.

Já entendi, querida. Vamos procurar uma liquidação de bolsas no shopping e não se fala mais no assunto.

***

Mas, para o caso de não haver piano ou bolsas com 70% off, aqui vai uma ótima para distrair a meninada no domingão: essa companhia carioca de teatro de bonecos chamada Papa Vento é uma gracinha, e tem alguns vídeos com trechos das historinhas no You Tube.

Esse é o “nosso” preferido, porque ela adora ver o jacaré roubando a roupa da Vovó e o menino procurando o jacaré. É muito legal ver que ela está começando a curtir os diálogos, o suspense, as surpresas e as piadas da historinha.

sábado, 26 de julho de 2008

Lembrete

Filha:
No segundo domingo de agosto a gente finge que esqueceu, dá bom dia normal e, de repente, aparece com alguma coisa brilhante ou útil ou simbólica ou satisfatória - dependendo do orçamento.

(Imagina se a gente ia ter esquecido. As mulheres têm memória de elefante.)



* Vitrine da loja Papel Objeto, no Flamengo.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O papai e a sua menina

O papai e a sua menina. Costuma funcionar assim.

Os pés estalam no chão, na saída do elevador, a chave procura o buraco da fechadura; de repente, o sol chegou. Não era fim de tarde ainda agorinha? E vai acontecer alguma coisa muito boa, ou a comida ganhou outro gosto, ou a sobremesa invadiu a colher e ela ganhou um beijo na testa. Ou tudo isso. Ele a rodopia, faz dar cambalhotas no ar, e seus braços são um balanço, mas também um seguro corrimão na hora do susto. Que ela gosta, e pede bis. Agora, a voz dele é anúncio de alguma festança que não tem nenhum motivo. E muito menos prazo para acabar - o que é melhor ainda.

Do nada, o papai e a sua menina. De lugar nenhum, um botão de camisa virou novidade, e tem outro, e mais outro. O que é isso? É seu nariz de campainha. Cadê a menina? Se escondeu atrás do risinho abafado de propósito para ele encontrar. Achou! Ela também quer que ele sinta alegria. Ela também quer ter os seus botões. E como tem.

O papai e a sua menina, plim!, ele fez uma mágica. Agora ela virou uma menina de circo - e ele virou trapézio, leão, palhaço, picadeiro e algodão-doce. Desde que ela nasceu, funciona assim: o papai e a sua menina. Sempre, sempre, todos os dias.

Às vezes, ele tem ido se deitar tão tarde que parece que nem vai dar tempo. Mas já acorda equilibrando bolinhas coloridas.