segunda-feira, 9 de março de 2009

Maternidade insubstituível

Ontem eu ouvia no rádio uma conversa sobre câncer de próstata, quando alguém perguntou ao especialista o motivo de existirem tão poucas mulheres urologistas no Brasil. O médico respondeu que certamente há resistência por parte dos pacientes em serem examinados por mulheres – embora ele afirme que, ao contrário do que se poderia imaginar, as médicas não têm nenhum constrangimento, e mesmo as jovens residentes examinam homens com a maior naturalidade.

Continuando a mesma resposta, ele observa ainda que as médicas geralmente optam por especialidades como a dermatologia ou a radiologia (que não envolvem cirurgia), por considerarem que essas atividades lhes darão tempo suficiente para, além de cumprir a carga de trabalho, também cuidar dos filhos. E concluiu dizendo algo como: “assim, elas podem trabalhar fora e também exercer a insubstituível função da maternidade”.

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Deméter - deusa grega da fertilidade

É verdade que a maternidade é insubstituível, e nenhum homem poderá ser mãe, pelo menos não tão cedo. Mas será mesmo uma função? E será que isso que se chama de “função” da maternidade é, de fato, algo que só pode ser exercido pela mãe?

Teria mil perguntas para emendar aqui. A questão é realmente complexa, e viver esse “exercício” materno, dia após dia, nos faz transitar pelas supostas convicções, deslizando entre argumentos racionais e picos emocionais que não estão sujeitos a classificações hierárquicas: “você fica aqui, querida tristeza etérea, que eu vou ali me dedicar ao aprimoramento intelectual das minhas verdades rochosas. E não me espere para jantar... Conversamos amanhã, isso se me sobrar um tempinho.”.

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sábado, 7 de março de 2009

A hora de ser pavãozinho

Garotinho de cinco anos brinca com a minha filha, de dois, na piscina infantil. Como todo garotinho (de até 90 anos, hoho), quer se exibir. Olha como eu sei fazer isso, olha como eu sei fazer aquilo, etc. Fico dando atenção aos dois ao mesmo tempo, já que sou a única adulta com os pés na água.

“Olha que bacana, filha, o fulaninho está nadando assim ou assado” -, digo a ela, e nunca sei se é por gentileza com o filho alheio, ou porque de fato estou me interessando por aquilo, ou porque acho que ela está, ou porque penso que deve ser “recreativo” ou “estimulante” ou simpático dizer o que estou dizendo. Enquanto observo minha filha e o pavãozinho de cinco anos na piscina, fico me perguntando se isso ou aquilo o tempo todo.

Vou avisando: é chato demais ser assim. Eu queria era ser um pouco mais pavãozinho, enfim, mas isso não vem ao caso.

O guri é um doce, bem educado, sadio, normal. Minha filha, idem. De repente, ela me pede para botar uma cadeirinha de plástico dentro da piscina, e eu atendo. Ela começa a brincar na cadeirinha e o garoto, óbvio, se interessa. Breve momento de distração dela, ele me pergunta: posso pegar? Permito.

Ele começa a inventar manobras elaboradas com a cadeira e me mostrar, enquanto minha filha fica olhando, ora admirada, ora distraída. Ela se volta para o lugar onde estava a cadeirinha “dela” antes e faz uma carinha triste/interrogativa ao perceber que sumiu. Mas permanece calada.

- Filha, você quer que a mamãe pegue outra cadeirinha para você?
- Quero.

Pego a outra cadeirinha e ponho na piscina para ela. Mal começa a brincar e o menino, para mim:

- Eu também consigo brincar com as duas. Será que ela não quer mais essa aí?
- Acho que ela ainda quer, sim...
- Quando ela não quiser mais é só falar que eu pego, tá?
- Tá.

Mais uma vez ela se distrai, e o menino aproveita para pegar a cadeira. Agora ele está com duas e ela, com nenhuma. Eu fico olhando a carinha dela para tentar descobrir se ficou chateada – em silêncio, decidi que só interferiria se ela demonstrasse alguma frustração. Mas ela não demonstra, pelo menos não naquele momento.

Aqui eu deveria ter perguntado: filha, você quer que a mamãe pegue outra cadeirinha? Você quer pedir a ele que devolva a sua?
Você quer que eu peça, que eu exija, que eu tome as duas cadeiras das mãos dele?
Eu deveria ter investigado, deveria ter me disposto a – simplesmente – perguntar?
Será?
Filha, você quer que a mamãe saiba o que dizer e como agir?
Você quer uma mamãe mais experiente e menos boboca?
Você quer uma mamãe que não escreva sobre isso? Você quer uma que engula as coisas e pronto? Você ficou chateada? As mães sempre sabem o que dizer? Deveríamos saber?
**
Logo nos distraímos e brincamos de outras coisas na piscina, inclusive com o pavãozinho simpático, e depois demos “tchau”, e tomamos nosso banho, comemos e assim por diante.

De noite, só nós duas no chão do quarto. Ela empurrava uma motinho verde e fazia questão de dizer “essa moto é minha”, várias vezes. Resolvi provocar:

- Empresta para a mamãe?
- É minha! - E escondeu entre as mãos, cruzando os braços.

Peguei massinha de modelar verde (a mesma cor da moto) e fiz um bonequinho. Comecei a conversar com ela, com voz de bonequinho, e perguntei se ela emprestaria a moto para “eu” (o bonequinho) dar uma volta. Sequer rolou um esboço de negociação: era não e não e não, a moto é minha, minha!

E o engraçado é que ela pegou simpatia pelo bonequinho, e começou a conversar com ele e a mostrar as coisas que a moto dela fazia. “Olha, a minha moto anda sozinha! Olha, ela anda em volta! Olha o banco dela. Olha as rodinhas.”

Talvez tenha chegado a sua hora de ser pavãozinho, e era mais seguro com um bonequinho de massa do que com um “gigante” desconhecido de cinco anos de idade.

Faz todo sentido, filhota. Insegurança à parte, o melhor que faço é observar e observar.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Meu irmão e eu


Um dia, depois de muito adiar a “confissão”, meu irmão finalmente tomou coragem:

- Mãe. É que eu fico com pena da Bíbi. Mas a verdade é que eu não gosto mais de brincar de Playmobil.

Eu sou a caçula, três anos e meio mais nova. Somos só nós dois. E só Deus sabe como eu aluguei meu irmão nesta vida. Caçulas alugam.

Minha mãe já sabia que ele não gostava mais de brincar havia muito tempo. Mas eu era tão empolgada com as brincadeiras, e tínhamos um nome e uma profissão e uma família e um plano de vida esquisito para cada Playmobil, e construíamos cidades, planejávamos viagens, elegíamos líderes, apostávamos corridas - tudo isso no chão do nosso quarto, dias e noites a fio, até a hora de reclamar porque deveríamos dormir.

Decerto ele ficava me olhando e pensando: mas ela ainda curte tanto, como é que eu vou desmontar essa coisa imensa que eu mesmo ajudei a construir? Deixar a guria perguntando e respondendo sozinha, tem graça?

Nisso ele tinha toda a razão: não tinha graça nenhuma brincar sem ele. Tanto é que, depois que os Playmobil se aposentaram, perseguimos os mesmos interesses (música, música), embalamos nossos sonhos e planejamos nosso futuro no mesmo tom, fizemos as malas e fomos morar juntos em outro estado. Meu irmão e eu. E até hoje eu penso que alguns bairros de distância entre nós são um exagero sem precedentes, deveria existir um tapete mágico, uma flauta encantada ou uma motoca de Playmobil que automaticamente nos transportasse para o chão do nosso quarto, plim!, seríamos crianças outra vez, e eu seria a caçula mala que pergunta o que vem depois do número mil.

PS: Pesquisando sobre os bonecos, fiquei sabendo que morreu, no dia 30 de janeiro passado, o desenhista industrial alemão Hans Beck, considerado o “pai” do Playmobil. Aos 79 anos. Valeu, Hans.
Daqui.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Curso de bebê - flashback

O texto abaixo é dedicado à MT, grávida de 27 semanas, e ao Caetano, que deve estrear neste mundo em maio.

Foi extraído do meu outro blog, do tempo em que eu estava grávida, mais ou menos na mesma fase da MT hoje. E, como ela, levemente ansiosa.

PS: No fim, tudo dá certo. Dá, sim.

Histeria e Curso de Bebê

Vamos fazer um curso de bebês. Dois sábados seguidos, na maternidade onde vou ter a Lara. Ai, meu Deus. Um curso de bebês.

- O segundo sábado será sobre os cuidados com o bebê, até ele completar um aninho – a moça me explicava por telefone.

Ai, meu Santo Cristo. Um aninho.

- Vamos ensinar como dar banho... Será usada uma boneca como modelo.

Ai, Jesus. Uma boneca como modelo. Já estou me vendo afogando a tal boneca na banheira - e as outras futuras mamães me lançando olhares de reprovação, olha lá a falta de jeito em pessoa, coitada, desastrada, estabanada, mal consegue dar banho na boneca-modelo, o que será da filha? E eu confundindo o bebê com o sabonete, esfregando o maior no menor, a água espirrando, a criança pulando para fora da banheira enquanto eu tento pescá-la no ar pelo pescoço, inutilmente, entre risadas espasmódicas e franco desespero.

- Rá!! Te peguei!

Peguei nada. Agora a boneca-modelo, ainda mais contrariada, já foi parar no colo do marido alheio, um bigodudo de bermudas floridas e unhas mal cortadas que veio do Panamá tocar percussão numa banda chinfrim e se encantou pela loira rebolativa que bebia cerveja quente na primeira mesa, ela piscava porque tinha cacoete mesmo, mas ele achou que era paquera e lhe pagou uma casquinha de siri – pronto, deu no que deu.

Povo engravida pelos mais variados motivos, impressionante.

Está bem, dá para perceber que estou me sentindo um pouco ansiosa. É verdade. Hoje liguei para a minha mãe.

- Tô ficando histérica.

- Calma, filha. Uma coisa de cada vez. É só organizar os pensamentos.

- Tá.

Pausa.

- Mãe... Agora estou histérica em ordem alfabética. Resolveu muito, não.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Dois anos: a primeira travessura

É de lascar. Hoje nós duas tomamos o café normalmente. Quando a babá chegou, ela quis sair da cadeira e fazer uma farra. Mas a babá precisava trocar de roupa, e ela já ia correndo atrás quando eu disse:

- Filha, vem cá que a mamãe quer te mostrar uma coisa no...

E ela, agarrada às pernas da Tina:

- Minha mamãe é a Tina!!!

Assim, na lata. Pobre da Tina, levou um susto e foi logo se explicando: “eu nunca disse isso a ela!”. E eu sei que não faria mesmo.

Menina, menina. Mal você fez dois anos e já me apronta essa. Se eu não tivesse acordado com um ótimo humor, se não tivesse dormido as regulares 8 horas, se meus hormônios estivessem enfrentando aquela ordinária situação mensal que todas nós conhecemos... Provavelmente, eu estaria desabafando no blog, em tons pastéis humorísticos, como se tudo isso não passasse de gaiatice literária numa manhã de terça-feira torta.

Filho é assim, quase uma questão fisioterápica. A gente estica e puxa para andar reta, na medida do possível, porque o solavanco é tão imprevisível quanto certeiro. Que mais?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Dois anos. Que mais?

Filha

Fiquei pensando no que eu queria te dizer nesse aniversário de dois anos, mas que hoje você ainda não entenderia.

Não sei o que dizer. Tudo que é importante na vida você já conhece – o amor, o afeto, a alegria. Até de dor você já entende; sentiu no pezinho, depois uma picada no bumbum, pressão no dentinho, e quando algum de nós saiu de casa e não deu para levar você junto. Soprou, passou, depois veio outra vez. E soprou, passou, de novo. Que mais?

“Que mais?” – é assim que você pergunta quando alguém diz qualquer coisa pela qual você se interessa. “Que mais?”, e a fantasia começa a desfilar seus blocos infinitos.

Você já sabe andar, falar, pular, correr, pedir, reclamar, protestar, gritar, comer com a colher e beber água no copo. Que mais? Já andou desenhando as suas baleias. Regeu alguns concertos (na TV) com seu pai, escreveu diálogos no computador com a sua mãe.

“Que mais?” – esse é o seu jeito de não acabar, de não romper o contato, não aceitar um ponto final. Se posso dizer alguma coisa importante, digo logo: conserve a curiosidade e o desejo de conhecer, descobrir, ir adiante, sempre além. Que mais? Que mais?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A maternidade em grãos

Mamãe tá de ptó!
(Eu estava de top.)

Mamãe tá boniiiiiita!
(Eu estava alegre. Fiquei mais.)

O cabelo da mamãe tá torto.
(Eu pego aquele #!@&(%$ que tosou meu ex-cabelo reto!)

Quanta bagunça a Tina fez aqui!
(O quarto todo revirado, e pondo a “culpa” na babá...)

O papai chegou!!!
(Detalhe: chegamos os dois juntos, e eu apareci primeiro, abri a boca e os braços, fiquei agachada em ridícula pose deixa-que-eu-chuto... Mas ela só teve olhos para o papai, mamãe era de vidro.)

Olha o barrigão da mamãe aqui!
(E a mamãe, que estava de “ptó” (top), tomou juízo e vestiu logo uma bata.)

***

Agora, falando sério. É muito interessante notar como as crianças são observadoras, atentas aos detalhes e extremamente críticas. Ser mãe e ter uma natureza tímida é desconcertante, e é um desafio que se instala de forma tão gradual, sutil e definitiva (como tudo na maternidade, aliás) que a gente passa a se reconhecer nisso também. Faz parte. Agora eu sou uma tímida observada, questionada e imitada, quer queria ou não, e não sou eu quem dá a medida em nada disso.

Ninguém acorda mãe. Aquilo que a gente vê no hospital é um projeto de família, mas todo mundo está meio grogue e ninguém tem experiência suficiente sequer para encarnar o papel que lhe caberá pelo resto dos dias. Assim que cheguei em casa - e percebi que minha mãe ficaria, mesmo, uns dias aqui para me ajudar -, abri um berreiro espalhafatoso e acho que nunca fui tão filha em toda minha vida. Primeiros dias de mãe.

Depois, você agrega certos elementos conforme o bebê vai crescendo. Aquilo vai sendo incorporado à rotina e - não é exagero dizer – também à sua personalidade. É uma formação contínua, uma via de mão dupla de aprendizado, conhecimento e reconhecimento, estranhamento e identificação, agonia e amor profundo. Na versão sem cortes, naturalmente.

Outro dia, entrei no quarto dela mastigando um último farelinho de biscoito. Como não era hora de ela comer biscoito, tentei disfarçar dizendo alguma bobagem qualquer, perguntei se ela queria ir não sei aonde. Ela nem esperou terminar minha frase, já emendou:

- Mamãe tá comendo o quê?

Ora, as crianças possuem um detector de farelos, é tão óbvio! Como pude pensar que conseguiria esconder a minha travessura entre os dentes? Felizmente, um bocado de criatividade e jogo de cintura podem nos salvar nesses momentos, é só não deixar o farelo entalar no entendimento.

- A mamãe não está comendo alface. A mamãe não está comendo brócolis. (Não menti, mas também não pronunciei nenhuma palavra que despertasse um desejo incontrolável nela, como “biscoito”). Agora, vamos andar de motoca? (Uma vez resolvida a questão alimentar, botei a motoca na jogada e despistei a gula. Ufa.).

Nem sempre é assim. Muitas e muitas vezes, saio-me razoavelmente, e depois vou me esconder no banheiro a alfinetar considerações teóricas em mim mesma, como se tivesse a obrigação de ter me saído melhor, afinal, eu me preparei e li tanto a respeito, e tive minha filha já aos 29 anos, e tenho uma estrutura familiar tão bacana, blá, blá, blá.

O conhecimento – via intelectual - pode até vir em blocos, mas a maternidade é em grãos. E a paciência, que tanto se anuncia ser indispensável em relação aos filhos, é artigo fundamental de uma mulher consigo própria, e do homem idem, caso queiram ser pais razoáveis e manter os cabelos intactos, a consciência tranquila - essas coisinhas que parecem mal fazer diferença no nosso dia-a-dia (um estresse aqui, uma briguinha boba ali), mas acabam norteando os caminhos e definindo, afinal de contas, o modo com que escolhemos viver a vida.

O lado bom do grãozinho é que ele vira o chão que a gente pisa. E o lado difícil também.