quinta-feira, 31 de maio de 2007

Exageros de mãe - Millôr Fernandes

Já te disse mais de mil vezes que não quero ver você descalço. Nunca vi uma criança tão suja em toda a minha vida. Quando teu pai chegar você vai morrer de tanto apanhar. Oh, meu Deus do céu, esse menino me deixa completamente maluca. Estou aqui há mais de um século esperando e o senhor não vem tomar banho. Se você fizer isso outra vez nunca mais me sai de casa. Pois é, não come nada: é por isso que está aí com o esqueleto à mostra. Se te pegar outra vez mexendo no açucareiro, te corto a mão. Oh, meu Deus, eu sou a mulher mais infeliz do mundo. Não chora desse jeito que você vai acordar o prédio inteiro. Você pensa que seu pai só trabalha pra você chupar Chica-Bon? Mas, furou de novo o sapato: você acha que seu pai é dono de sapataria, pra lhe dar um sapato novo todo dia? Onde é que você se sujou dessa maneira: acabei de lhe botar essa roupa não faz cinco minutos! Passei a noite toda acordada com o choro dele. Eu juro que um dia eu largo isso tudo e nunca ninguém mais me vê. Não se passa um dia que eu não tenha que dizer a mesma coisa. Não quero mais ver você brincando com esses moleques, esta é a última vez que estou lhe avisando.

Texto extraído do livro "'10 em Humor", Editora Expressão e Cultura - Rio de Janeiro, 1968, pág. 15.

Mais Millôr

terça-feira, 29 de maio de 2007

Varal - Traga seu casaquinho!


Nosso Casaquinho quer saber a quantas anda a sua prole! (Estamos escrevendo no plural para dar mais sentido de coletividade ao casaco, muito embora nós, que escrevemos aqui, sejamos uma pessoa só. Não sei se fui clara.)

Participe você também da pesquisa (ao lado). Sua votação é muito importante para nós. Estamos trabalhando para a sua satisfação etc etc!

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Sobre a maternidade, os sonhos e os vidros

Eu tinha uns três aninhos. Minha mãe passeava comigo pela Rua Grande, no centro da cidade (São Leopoldo, minha terra!). De repente, sem mais nem menos, pus a mão na minha barriguinha e disse, bem alto:

- Ai, ai! (suspiro) Que vontade que eu tô de criar um bebê aqui dentro da minha barriga!!

Causei risos aos passantes e corei as bochechas da minha mãe, coitada.

Com o tempo, fui me esquecendo do desejo de ser mãe. Na adolescência, cheguei a decidir que não teria filhos. A gente decide tanta coisa quando é adolescente!

Até que um dia – acho que eu tinha 19 anos – tive um sonho com uma menina linda, tão linda e tão doce, que eu ficava admirando através de um vidro. Ela sorria, eu sorria daqui, mas ela nem me notava. Tinha um vidro enorme entre nós.

Quando eu já estava quase desistindo de brincar com aquela bonequinha distante, veio alguém e me cutucou: “Ei.. É sua filha”. Aquilo tomou conta de mim – a menina do outro lado do vidro era minha filha! Ainda quis questionar a pessoa (não lembro quem era) dizendo que não podia ser minha filha, olha aí esse vidro...

- Que vidro? – A pessoa disse.

E eu olhei de novo e não tinha mais vidro nenhum.

Quando acordei, contei o sonho para a minha mãe e informei que tinha mudado de idéia; agora eu queria ser mãe.

- Por causa de um sonho? – Ela me sorriu, na verdade achando muito bom.

Eu não sei se foi o sonho, a vontade infantil ou o fato de eu ter conhecido o pai dela (a menina do outro lado do vidro que não havia mais). Ou foi tudo isso junto. Mas o sonho tem uma coisa interessante: quando descobri que era mãe, o vidro sumiu.

Vou dizer uma coisa que nunca disse, e não é para convencer ninguém de que a experiência da maternidade seja indispensável na vida de uma mulher (continuo não achando isso). Mas que os vidros estão caindo, estão.

domingo, 27 de maio de 2007

Não me meto com as tuas mamas; não te metas com as minhas!

É maravilhoso sair na rua e ficar colhendo elogios derretidos à minha filha. Os adultos babam, as crianças ficam fascinadas e curiosas.

- Viu, filhinha? Você já foi assim...

(É ruim! Assim como a minha filha, sorry, só a minha filha!).

Mas hoje, no shopping, chegou uma mulher maluca e colou o olho nela.

- Quantos meses?

Sabe doida arregalada? Você se sente observada por duas lunetas.

- Três meses e mei...

- Nããããoooo!??? – Agora ela arregalava a boca, o nariz, tudo. – Não pode ser!! E tão esperta! Vê como ela quer olhar tudo! Aaai, meu Deus! Como é que pode?

- He he he... (Nossos risos amarelos.)

Virou-se para mim, e quase tive um treco, porque ela não falava: gritava.

- Você dá o peito de três em três horas???

Numa mesma pergunta, a mulher informou metade do shopping o que se passa com os meus seios e com a minha filha diariamente, e ainda acrescentou os intervalos das mamadas (para não restar dúvida). Não sou especialmente acanhada, mas, francamente, nesse momento eu “vi” dezenas de olhos se voltando para a minha direção no afã de obter resposta.

E aí? DÁ O PEITO OU NÃO DÁ?

Xícaras se arrastavam nas mesas, apreensivas. Casais suspendiam o assunto. Garçonete empacou com a bandeja na mão.

DÁ O PEITO OU NÃO DÁ?

- Hhumrsggg... D-dou, sim.

Droga! Acovardei-me diante da pressão, engasguei e respondi. Devia ter dito:

- Vem cá! Estou, por acaso, querendo saber o que tu fazes das tuas mamas? Não estou! Então, vamos combinar que eu não me meto com as tuas mamas, e não te metes com as minhas!

Não sei por que as mamas das mães são consideradas coisa de domínio público. Assim como a barriga das grávidas, aliás. É uma falta de cerimônia!

E tem mais: essa expressão “dar o peito” é muito feia, além de equivocada. Ora, não estou “dando meu peito” a ela.

Estou, no máximo, emprestando.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Mamães escolhem suas noras

A crítica caiu de pau, mas eu achei a idéia maravilhosa (brincadeirinha, vai): a TV italiana lançou um novo reality show chamado “Noiva Perfeita”. Nele, mães de homens solteiros se enfurnam numa casa com candidatas a noras; a função das mammas italianas é avaliar as prendas domésticas (ai...) da mulherada, e o público vai eliminando as menos queridas.

Do Blue Bus.

***

Falando sério, os críticos não gostaram porque o programa considera que o papel da mulher – ou da “mamma” - seja cuidar da família e da casa (coisa ultrapassada, segundo eles). Nem vou comentar isso: tão óbvio.

Mas, falando não-sério (dá para levar a sério um reality show?), a fantasia de mamãe escolher nora é ótima! Devia haver outros critérios, seria mais divertido e inteligente. Tá bom, já é querer demais.

Veja o site do programa – que, aliás, conta com participantes brasileiras...

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Primeiros movimentos

Agora começou a inclinar o tronco para frente. No início do movimento, parece determinada. Quando recostada no colo de alguém, joga a cabeça em direção ao peito – querendo aproveitar o peso do crânio para obter vantagens gravitacionais – e faz uma cara enfezada: “Rá, vocês pensam que eu não consigo?”.

Lá vai ela. Uma força grande no abdômen! Quando vê, conseguiu “sentar” o corpinho em L. Mas o L dura uma fração de segundo: logo a cabeça e a força para sentar resultam exageradas, de modo que acaba com o nariz lá nas canelas, se deixar... Então, antes disso, faz uma cara assustada - “ai, me ajudem!” -, e a gente ajuda pondo de volta na posição original. E ela começa tudo de novo.

Agora, com três meses (e meio) de idade, está ficando muito comum essa seqüência dupla de emoções, registradas pelas caretas que ela faz. Primeira: “sou poderosa, vou investir determinado esforço em determinado objetivo, não tentem me impedir!”. Segunda: “Socoooorro!!! Não deu certo! Quem foi o #&!*#% que me orientou a proceder dessa maneira??”.

Alguma coisa me diz que isso é só o início...

quarta-feira, 23 de maio de 2007

O sexo dos bebês




Um teste que permite descobrir o sexo do bebê na sexta semana de gestação causa polêmica na Grã-Bretanha. Grupos anti-aborto alegam que o exame pode induzir ao desejo de interromper a gravidez caso o sexo não seja o desejado pelos pais.

Leia a matéria na BBC Brasil.

Polêmica à parte, a curiosidade é mesmo grande! Nós descobrimos só com 22 semanas, na segunda tentativa (fizemos o ultrasom com 20 semanas, mas a Lara fez charminho e apareceu sentada, de ladinho e com as duas mãos cobrindo o objeto - no caso, a objeta! - fundamental para o tira-teima).

Reproduzo, abaixo, o texto que publiquei quando, finalmente, descobrimos que era ela.
***

Ultrasom – 22 semanas

- É uma menina.

Estranhamente, eu não quis acreditar. O senhor tem certeza? Checa bem esse negócio aí, alô, alô, tá funcionando o aparelhinho que mede? Olha, o senhor desculpe, mas eu já passei por isso antes, cheguei aqui e o bebê me apareceu sentado e...

- Estou dizendo, é uma menina.

Vai por mim, doutor, essas coisas às vezes enganam, estou calejada, imagine que minha primeira experiência deu segundo turno, Deus me livre de empatar um jogo desses, esse gelzinho é de boa qualidade? Gruda bem o scanner que você passa na minha barriga, está bem grudado? Eu digo, aderindo? Olha, a imagem na tela não está lá essas coisas, não. Quero dizer nada. Muito chuvisco. Tem risco de haver interferência com os bebês das outras?

- A sua filha é uma me-ni-na! Está muito claro, olha lá o sexo!!

Não havia Cristo que me fizesse engolir a ficha. Eu seria mãe de uma menina. Que alegria doce; um suspiro bem ensaiava, mas não me acontecia. Continuei tentando me certificar, e apertava a mão do pai cada vez mais forte, como quem pedia que me dissesse que era isso mesmo, soprasse no meu ouvido sem que o médico estivesse olhando: psiiiu, ele está falando sério!

A verdade é que só acreditei quando olhei para ele – o pai dela.

Dizem que as mulheres são mais sensíveis às formas não verbais de comunicação, um franzir de testa, um jeito, acento de sobrancelha. Na tela eram pedacinhos de pés, braços, boquinha, mão, ossos e feições confusas. Na voz do médico eram palavras.

Mas o pai fez lá um ar, e foi ali que eu enxerguei inteira a minha Lara.