24 de abril de 2008
Filha, hoje você andou pela primeira vez. E a mamãe soube pelo interfone.
- Dona Bíbi, a Lara tá andando.
- Hum.
- Sozinha!
Achei que era exagero da babá e nem desci ao play. Ok, está andando, dois ou três passinhos, isso eu já vi. Todo mundo viu. Andando sozinha? Como assim, andando sozinha?
Quer dizer, sem mim?
Imagina. Não tinha um cordão que nos ligava até outro dia? Eu lembro, estava aqui limpando seu umbigo com álcool, foi ontem mesmo, ainda sinto o cheirinho.
- Pô, mãe. Precisava botar esse papo nojento de umbigo no meio do texto?
Você nem bem começou a andar sozinha e já está dando pitaco no meu texto, com essa cara de quem tem 14 anos e já pensa que tem 18. Pois saiba que eu, na sua idade...
- Mãããe! Alooo-ou! Coisa mais careta essa conversa de “eu, na sua idade”. Não se usa mais isso, sabia? Aliás, não se usa nem a palavra careta. Mas isso eu dou desconto, porque esse texto foi escrito no seu tempo, e...
No meu tempo? Como assim, no meu tempo? Desde que o médico cortou aquele bendito cordão, a sua quilometragem está rodando junto, viu? Portanto, é seu tempo também.
- Tá, eu digo no tempo em que você era jovem. Ops! Mais jovem.
Sabe o que te salva?
- Ser sua filha querida do coração?
Não. O que te salva é que você diz essas coisas dentro da minha imaginação.
- E se eu, algum dia, disser do lado de fora?
Você não seja doida. Que eu te engulo e começo tudo de novo, dentro da minha barriga.
- Ah, mãe. Justo agora que eu comecei a andar sozinha?