domingo, 9 de março de 2008

Até tu, birra?

Hoje você fez birra. Minha filha, você fez birra. Vamos fazer de conta que eu não vi. Mas eu vi, sim, que você fez birra.

Muito bem, o negócio é o seguinte. Aqui temos papéis a cumprir, você e eu. Não vou ficar chateada, magoada, irritada porque você queria mexer na tampa do vidro – e eu não deixei. Duas vezes, não deixei. Três. Quatro. E você endureceu todos os músculos do rosto, ou pelo menos os que você sabe endurecer, e emitiu sons arranhados e agudos. E eu segui não deixando.

Você ficou indignada porque o endurecimento dos músculos do seu rosto não surtiu efeito algum no universo, tampouco seus sons contrariados, e me olhou bem desafiadora.

- Grrrsssffffmmmmxxxxssss!!!

Ralhou comigo em russo. Só me faltava essa. Continuei não permitindo que você mexesse no vidro, em bom português.

- Aqui não pode.

Você deve ter pensado, eu aqui me esforçando no vocabulário e essa mulher limitada engasgou-se numa frase, aqui não pode, aqui não pode, mas será o Benedito? Isso eu já ouvi, não pode. E daí que não pode? Se eu quero. Tem que poder. Por acaso eu tô falando russo, ô?

- Aqui não pode.

Você me desafiou outra vez, agora duas oitavas acima. Meus assustados tímpanos me questionaram: tem certeza que ela não pode mexer no vidro, uma vezinha só, vai?

- Aqui não poooo-deeee!

Ser mãe é botar os tímpanos na zaga se preciso for. E não permitir certos chutes a gol (nem por um estádio inteiro de insistências).

Ser filha é fazer birra e ver até onde vai colar, por isso não vou me chatear com você. É seu papel, está escrito no manual prático de como ser um bebê normal: fazer birra e tentar espichar o elástico do “não pode” até ele se romper e a gente ficar só com a parte do “pode”.

Surpresa! Mamãe está aqui para lembrar, docemente, a parte não tão doce da vida. Não pode o vidro, mas pode a bola. O carrinho. Olhar o céu. Apertar o caracol de borracha. Dar beijinho. Quanta coisa boa a gente pode!

Sabe? Secretamente, até achei sua birra engraçadinha.

Mas isso eu só conto quando você fizer 30 anos.

7 comentários:

Maristela disse...

Isso me lembra alguém (bem pequininha) que cantava "Dinheio chim...sabe quem é?
Bjs

egipciane disse...

Que doce.
Ai ai, o melhor de tudo é que sei q vou passar por isso daqui um tempo.
Bela crônica. Bjs

Patricia Haddad disse...

Linda crônica. Adorei! E não vejo a hora de passar pelo mesmo dilema.

Lili Fernandes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lili Fernandes disse...

Hahahahahaha... Birras, como são terríveis, não?? O meu pimpolho - Pedro Antônio, de 5 meses - aprendeu cedo o que é fazer birra. E ainda por cima é cínico. Pq qdo ele não quer fazer o que deve (colocar roupa depois do banho, por exemplo) ou quer fazer o que não deve (puxar qquer coisa ao alcane de sua linda mãozinha e pôr na boca, por exemplo), ele grita. E chora (sem lágrimas, é claro!). E esfrega o rostinho todo, até ficar roxo (ele é branco quase transparente! rsrs). E eu digo "Pedro Antônio, NÃO!", e ele pàra a birra, me olha sério, e sorri. Sorri não, gagalha mesmo...
O que é que se faz numa hora dessas??? hahahahaha...
Filhos são tudo mesmo. Até na hora da birra.
Bjs pra vc e sua linda menina.

Wallace Fauth disse...

Legal!
Continua a Bíbi leve de sempre.

aquarella disse...

Estou apaixonada por vcs duas!