quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Máquina de acelerar

Os bebês são pequenas máquinas de acelerar. O tempo, as emoções, as alegrias, as angústias, a sensação de “vida aqui agora mais do que nunca já”.

Uma amiga, quando soube que a Lara tinha nascido, aconselhou: aproveita, porque agora tudo vai passar muito rápido. Mais rápido do que as pessoas dizem. Não sou de ficar alarmada com conselhos desse tipo - “todo mundo diz que...” -, porque já aprendi que o senso comum esquece pelo caminho alguns farelos aparentemente insignificantes, mas particularmente fundamentais. O que me importa, comove ou instiga pode ser justamente o pedacinho do bolo que você julga enjoativo e descarta, e vice-versa.

Sim, mas os bebês são máquinas de acelerar, e os bolos de aniversário sabem disso muito bem. E as amigas que dão conselhos porque também são mães, e as mães que dão conselhos porque também são amigas.

Um dos fenômenos que comprovam essa tese banal é o vaivém de comportamentos inesperados. Agora ela deu de gritar, e parece que tem no grito tamanha convicção que é capaz de não fazer outra coisa da vida por um bom tempo, a não ser gritar com entusiasmo quando vê, pensa, sente ou cheira qualquer coisa que a gente não sabe identificar. De repente, puf!, somem os gritos. O negócio agora é procurar helicópteros.



Acompanhar essa enxurrada de preferências e atividades entusiásticas que aparecem e desaparecem em poucos dias dá a nós, seres adultos mergulhados nas adultices da vida, uma sensação vertiginosa e contraditória: primeiro, os dias parecem imensos (acontece tanta coisa diferente!). Em seguida, temos certeza de que eles passam num soprinho, e já entra outro dia comprido que ops!, também sumiu num giro das hélices.

Bom é estar presente; essa coisa meio budista de não se deixar ausentar do instante. Quem tem mania de ordem e previsibilidade, como eu, certamente vê escapar aquela doce ilusão de ter o controle das coisas. Bobice de gente adulta, enfim. Vive-se perfeitamente sem isso.

Aqui passam muitos helicópteros, para os quais acenamos veementemente da varanda. Em dias de muita chuva temos sempre helicópteros no You Tube para quebrar um galho, além das boas e velhas revistas de papel. A moda vai passar em breve, e de todo modo é emocionante - porque a máquina de acelerar sempre aparece com uma surpresa maior, mais linda, mais-mais. E vira máquina de fazer bobos, orgulhos e babas variadas.

Quando passou a moda do piu-piu, por exemplo.

- Filha, vem aqui, rápido! Olha lá o piu-piu!

E ela me olhou, entre constrangida e séria:

- Gaivota.

PS: Nunca andei de helicóptero, tenho um medo que me pelo. Quem sabe?

Nenhum comentário: