sábado, 7 de março de 2009

A hora de ser pavãozinho

Garotinho de cinco anos brinca com a minha filha, de dois, na piscina infantil. Como todo garotinho (de até 90 anos, hoho), quer se exibir. Olha como eu sei fazer isso, olha como eu sei fazer aquilo, etc. Fico dando atenção aos dois ao mesmo tempo, já que sou a única adulta com os pés na água.

“Olha que bacana, filha, o fulaninho está nadando assim ou assado” -, digo a ela, e nunca sei se é por gentileza com o filho alheio, ou porque de fato estou me interessando por aquilo, ou porque acho que ela está, ou porque penso que deve ser “recreativo” ou “estimulante” ou simpático dizer o que estou dizendo. Enquanto observo minha filha e o pavãozinho de cinco anos na piscina, fico me perguntando se isso ou aquilo o tempo todo.

Vou avisando: é chato demais ser assim. Eu queria era ser um pouco mais pavãozinho, enfim, mas isso não vem ao caso.

O guri é um doce, bem educado, sadio, normal. Minha filha, idem. De repente, ela me pede para botar uma cadeirinha de plástico dentro da piscina, e eu atendo. Ela começa a brincar na cadeirinha e o garoto, óbvio, se interessa. Breve momento de distração dela, ele me pergunta: posso pegar? Permito.

Ele começa a inventar manobras elaboradas com a cadeira e me mostrar, enquanto minha filha fica olhando, ora admirada, ora distraída. Ela se volta para o lugar onde estava a cadeirinha “dela” antes e faz uma carinha triste/interrogativa ao perceber que sumiu. Mas permanece calada.

- Filha, você quer que a mamãe pegue outra cadeirinha para você?
- Quero.

Pego a outra cadeirinha e ponho na piscina para ela. Mal começa a brincar e o menino, para mim:

- Eu também consigo brincar com as duas. Será que ela não quer mais essa aí?
- Acho que ela ainda quer, sim...
- Quando ela não quiser mais é só falar que eu pego, tá?
- Tá.

Mais uma vez ela se distrai, e o menino aproveita para pegar a cadeira. Agora ele está com duas e ela, com nenhuma. Eu fico olhando a carinha dela para tentar descobrir se ficou chateada – em silêncio, decidi que só interferiria se ela demonstrasse alguma frustração. Mas ela não demonstra, pelo menos não naquele momento.

Aqui eu deveria ter perguntado: filha, você quer que a mamãe pegue outra cadeirinha? Você quer pedir a ele que devolva a sua?
Você quer que eu peça, que eu exija, que eu tome as duas cadeiras das mãos dele?
Eu deveria ter investigado, deveria ter me disposto a – simplesmente – perguntar?
Será?
Filha, você quer que a mamãe saiba o que dizer e como agir?
Você quer uma mamãe mais experiente e menos boboca?
Você quer uma mamãe que não escreva sobre isso? Você quer uma que engula as coisas e pronto? Você ficou chateada? As mães sempre sabem o que dizer? Deveríamos saber?
**
Logo nos distraímos e brincamos de outras coisas na piscina, inclusive com o pavãozinho simpático, e depois demos “tchau”, e tomamos nosso banho, comemos e assim por diante.

De noite, só nós duas no chão do quarto. Ela empurrava uma motinho verde e fazia questão de dizer “essa moto é minha”, várias vezes. Resolvi provocar:

- Empresta para a mamãe?
- É minha! - E escondeu entre as mãos, cruzando os braços.

Peguei massinha de modelar verde (a mesma cor da moto) e fiz um bonequinho. Comecei a conversar com ela, com voz de bonequinho, e perguntei se ela emprestaria a moto para “eu” (o bonequinho) dar uma volta. Sequer rolou um esboço de negociação: era não e não e não, a moto é minha, minha!

E o engraçado é que ela pegou simpatia pelo bonequinho, e começou a conversar com ele e a mostrar as coisas que a moto dela fazia. “Olha, a minha moto anda sozinha! Olha, ela anda em volta! Olha o banco dela. Olha as rodinhas.”

Talvez tenha chegado a sua hora de ser pavãozinho, e era mais seguro com um bonequinho de massa do que com um “gigante” desconhecido de cinco anos de idade.

Faz todo sentido, filhota. Insegurança à parte, o melhor que faço é observar e observar.

2 comentários:

Angélica disse...

Puxa Bibi, ótimo post. Eu também às vezes não sei como agir. Meu filho (de 2 anos e 3 meses) é muito bonzinho e geralmente "sai no prejuízo". Como é filho único, entrou para a escolinha com 13 meses, porque a meu ver ele tem que conviver com outras crianças para poder saber dividir, conviver, apanhar e bater, fazer o que ?! Mas percebo que ele anda aprendendo a expressar sua vontade (e com vigor). Bom, acho que crescer implica um pouco em sofrer também, né? Pra eles e pra nós inclusive, que não temos respostas pra tudo, embora seria ótimo se tivéssemos ... Mas estamos aprendendo juntos como ser mãe e filho! Beijos.

bibi disse...

Angélica,

crescer é doííído (e doido) mesmo, né?
Muito interessante o seu comentário, o importante mesmo é que sempre estamos fazendo as coisas pensando no melhor, querendo acertar. Ninguém consegue 100%, mas é tão importante querer e estar disponível.
Beijos e obrigada!