segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Tirar as fraldas - as minhas, inclusive

Cansei de ler dicas e mais dicas sobre como tirar as fraldas da criança. Perceber os sinais de que ela está pronta, ter paciência, ser constante, não fazer drama quando o xixi “escapa”, etc. Há quem diga que a estação do ano (calor) é fundamental; outros garantem que é irrelevante: se está na hora, está na hora e pronto.

Para além de invernos ou verões, penicos, adaptadores e eventuais acidentes, porém, encontrei pouco conteúdo relevante. Fico me perguntando se sou a única mulher maluca que fica pensando – e sentindo – várias coisas relativas à intimidade da minha filha nessa fase. Intimidade mesmo. As crianças são pessoas de verdade.

Ou será que nós, adultos, muitas vezes as tratamos como se fossem massinhas de modelar?

Processo compartilhado

Minha filha está aprendendo a controlar a saída de um material que, até então, poderia muito bem ser considerado um defeito de fabricação: misteriosamente, uma fralda branquinha saía suja e voava para o lixo em um ritual mecânico cuja parte que lhe cabia era mínima. De pernas para cima, observava tudo, resmungava um pouco e, depois, voltava a brincar como se nada tivesse acontecido.

Agora, não. Ganhou dúzias de calcinhas e um aviso: virou menina crescidinha. “Igual à mamãe” – ela própria repetiu e repete, certamente sem ignorar a quantidade de cabelos, pelos, tamanhos, vozes e volumes que nos separam. Virou a protagonista dos seus líquidos e sólidos, ao mesmo tempo em que – recentemente! – está começando a orquestrar sua própria imaginação ao inventar diálogos entre as bonecas. Controlar as coisas que saem do nosso corpo e lidar com as que entram na nossa cabeça: ufa!, confesso que até hoje me atrapalho um pouco...

É tão óbvio – mas quase ninguém fala – que o processo de tirar as fraldas é, assim como tudo na maternidade, compartilhado. Nós duas estamos “desfraldando”. Aliás, aqui em casa, nós três estamos. Por mais que as regras, dicas e toques sejam extremamente válidos na hora do aperto (literalmente), a verdade é que cada criança é uma criança e, além disso, cada relação mãe/filho e pai/filho é uma espécie de “entidade” que conta muito, eu diria que praticamente define o processo.

A intimidade e o mundo

Será que estou exagerando? Pode ser, sou dada a exageros. Exatamente por isso, não consigo deixar de sentir, na minha própria pele, uma série de questionamentos sobre como eu lido com a intimidade e como isso norteia a minha relação com o mundo. Por uma questão de responsabilidade, me pergunto: em que ponto pode começar o nosso relacionamento com o mundo exterior, senão a partir da intimidade? Alguma coisa me diz que o processo de retirada de fraldas tem a ver com isso.

Não tenho nenhuma sugestão, proposta, dica ou carta na manga para tornar essa fase agradável – ou, como desejaríamos, o mais breve possível. Estou recém no início e já me vejo atrapalhada e perplexa. Às vezes, tenho sérias dúvidas sobre estar infernizando minha filha com os “convites” a comparecer no vaso sanitário regularmente, que a mim já estão enchendo a paciência, isso que não tenho um baú de brinquedos a me esperar no quarto ao lado. De qualquer forma, como diz minha mãe, “com a maternidade a gente repensa as próprias convicções o tempo todo”. Isso vale tanto para as situações em que ela faz xixi no chão - e não sei que cara fazer - quanto para meus momentos mais íntimos, sozinha no quarto, escrevendo ou pensando na varanda... E não sei que cara fazer.

Crianças são pessoas de verdade, e de verdade nos ensinam que, às vezes, o xixi escapa. Nossa capacidade de respeitá-las e conduzi-las, com firmeza e consistência, vai nos transformando de adultos que somos em adultos que podemos ser. Como massinhas de modelar.

6 comentários:

Lia disse...

Lindo texto, Bibi! Se todos vissem a maternidade e a paternidade com esse olhar poético - que para mim é muito mais real que as trivialidades do dia-a-dia -, certamente aproveitariam mais esse momento milagroso da existência. E ver essa fase tão escatológica como um momento íntimo não é pra qualquer um...
P.S.: Odeio cocô. Odeio até fazer exame de fezes. Socorro.

Angélica disse...

É Bibi, fácil não é ... Acho que nem pra eles, nem pra nós. Também me preocupo se estou infernizando demais meu garotinho, mas como ele se destrai com facilidade, envolvido nas brincadeiras, eu acabo perguntando, quase que de 15 em 15 minutos se ele não quer fazer xixi. Às vezes me preocupo se ele não está demorado demais com esse "processo", pois começamos a treiná-lo em março e ainda estamos sujeitos a algumas "chuvas e trovoadas", se é que você me entende. Bom, levando em conta que cada um tem su ritmo, vou pacientemente (mais ou menos) levando. Mas quando temos alguma festa, aniversárío ou algo que o entretenha por muito tempo, acabo colocando as fraldas, para deixá-lo mais livre de minhas trocentas perguntas inconveninetes. Sei lá, acho que ser mãe é errar tentando acertar. Sempre!
Beijos e boa sorte.

bibi disse...

Obrigada, Lia! Quanto a odiar cocô, exame de fezes e tal, estamos na mesma... haha!

Angélica, eu te entendo completamente. Fico realmente perdida e faço igual a você, pergunto a toda hora - e mesmo assim, acidentes acontecem ALL THE TIME.

Quanto a ter começado em março, dizem mesmo que o processo pode levar meses, né?
Tenhamos paciência e constância...
vamos aprendendo.
:o)
Beijos!

Patricia disse...

É Bibi, mais difícil que aprender a andar, a falar e a desfraldar é ter que ensinar tudo isso, querendo que o filho ande sem cair, fale sem errar, aprenda sem nunca se machucar. Difícil a arte de ser mãe. Deliciosa, mas difícil.
Adorei esse post.

bibi disse...

Hehe. Boa, Patrícia!
É isso mesmo... Resumiu tudinho.
:o)
Beijocas.

Denise Mieko disse...

Eu nem sou mãe e adorei seu texto (pra variar, né!)
Beijos, querida!